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VALE DAS AMEIXAS (ou O TRIUNFO DA LINGUAGEM)

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Ronaldo Cagiano (*)

Autor de mais de uma dezena de livros e prêmios em sua trajetória literária, entre eles o “Nestlè de Literatura 1988” com o originalíssimo romance “Mil corações solitários” (Ed. Scipione, SP), o jornalista, professor, crítico e ensaísta Hugo Almeida acaba de lançar o arrebatador “Vale das ameixas” (Sinete Editora, SP, 2024), obra que, pelo viés heterogêneo, transcende categorias e gêneros literários, pois inscreve-se como narrativa multifacética, polifônica e polissêmica, na esteira de um processo que carrega múltiplas ambiências.

Narradores, personagens e autor formam um caudaloso caleidoscópio temático-formal em que, para além de um enredo heterodoxo, os planos verbal e sensorial captam os múltiplos aspectos de uma história que se plasma na memória, no fluxo de consciência, nas abordagens críticas e na inflexão filosófica, tendo como amálgamas o humor e a ironia, e às vezes a causticidade, como anteparos da tensão e da densidade com que o rio das ocorrências, cenários, lembranças e evocações vão deslindando a trama.

Seus protagonistas, o melancólico e nostálgico professor Harley Thymozwski, o Timo, um exilado territorial e geográfico, fugitivo de guerra; e sua empregada Benedita, figura emblemática, uma espécie de antena cuja interlocução dá sentido primordial à humanidade dos sentimentos e das idas e vindas das recordações e confissões, norteiam “Vale das ameixas”, num espectro circular em que forma e conteúdo harmonizam um inegável pout pourri de profundos questionamentos sobre a vida e o lugar da própria arte e da literatura em tempos sombrios.

No decurso da leitura, essa escrita demiúrgica, pungente, intertextual e metalinguística de Hugo Almeida não apenas cuida, em clave fragmentária, das relações dos protagonistas com o presente e o passado e de suas observações críticas e pulsões questionadoras, mas atravessa-lhe uma consciência estética primordial, na relação do autor com as diversas linguagens e seus signos, numa visão ampliada sobre vertentes sócio-culturais que vão da literatura ao cinema, da música ao teatro, da fotografia às artes plásticas, da ciência à política, da religião à epistolografia. É, sobretudo um livro para resgatar o que é essencial e necessário numa obra literária, algo tão baldo nas produções ficcionais contemporâneas, povoados de mais (ou será de menos?) do mesmo, quando o fetichizado mercado editorial, mais preocupado com contextos e não com textos; com militâncias e bandeiras, em prejuízo da linguagem, elegeu suas temáticas e vai erguendo um cânone cevado no identitarismo, em que a qualidade e o talento do escritor são irrelevantes, pois o que prevalecem são a boca-de-urna nas redes sociais, os likes e indicações de influencers e youtubers e assento nas passarelas das festas e feiras literárias, esse açougue povoado de celebridades mais que de autores genuínos.

“Vale das Ameixas” é um oásis em meio ao deserto de publicações incensadas pela mídia e ao lixo literário nacional e estrangeiro sacralizados por grande parte de uma crítica seduzida, rendida e vendida aos modismos e rotulações que tanto menoscabam a literatura em nosso país. Uma obra que coloca o autor na mesma dimensão criadora de um Osman Lins, de um Cortázar, de um Samuel Rawet, de um Ricardo Guilherme Dicke, de um Robert Musil, de um John dos Passos ou um Dyonélio Machado, autores que tiveram a honestidade, sem fazer concessões, de escrever verdadeiramente, indo fundo na realidade existencial, psicológica, política, social e metafísica, aos céus e aos infernos, doa o que (e a quem) doer, percorrendo os labirintos da própria condição humana.

Nesse particular “Vale das ameixas” dirige-se ao leitor numa perspectiva transformadora, pois o torna cúmplice de suas digressões, não nos deixa indiferentes após sua leitura, identificando-se com o que disse Isabel Allende em seu texto ‘Vida interminável’: “Há histórias de toda espécie. Algumas nascem ao ser contadas, a sua substância é a linguagem e antes que alguém as ponha em palavras são apenas uma emoção, um capricho da mente, uma imagem ou uma reminiscência amigável. Outras chegam completas, como maçãs, e podem repetir-se até ao infinito sem risco de alterar o seu sentido. Existem umas que são tomadas pela realidade e processadas pela inspiração, enquanto outras nascem de um instante de inspiração e se transformam em realidade ao ser contadas. E há histórias secretas que permanecem ocultas nas sombras da memória, são como organismos vivos, nascem-lhes raízes, tentáculos, enchem-se de aderências e parasitas e com o tempo transformam-se em matéria de pesadelos. Por vezes, para exorcizar os demônios de uma recordação é necessário contá-las como um conto.”

(*) Escritor brasileiro, reside em Portugal.

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Excerto:

“Gosto de quando dona Benedita se cala por um tempo, mas a tagarelice dela não é vazia nem tão incômoda, sei que é precisão de se ligar ao próximo, nada tem de doença, ao contrário do que Plutarco condena. Cala-te, meu filho, o silêncio tem muitas belezas. Eurípedes fez coro, a boca conduz à desgraça. Ninguém foge da dona Benedita porque ela fala muito. Ela sabe ouvir, o que o doente tagarela não sabe. Não é uma falastrona. Não, não é.”

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