Evocação de uma mulher em visita

por Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Cinco poemas e um vídeo inéditos do caderno Evocação de uma mulher em visita.
“E ver vinha de ver, e se movia / por um agora de alma” Fernando Echevarría
“[…] pela poesia não se obtém aquilo que a vida não dá. Quer dizer, a poesia não tem outra substância (que é também o seu segredo) a não ser a abstracção do que o poeta viveu ou não, é tudo, é pouco e ultrapassa a vida inteira.” (Maria Filomena Molder — citado algures por M. T. R.-Leal)
I
A espada suspensa do sol desperta uma multidão
de pequeninos brilhos obsessivos na manhã do mar:
emerge a jovem e pagã praia da vida _______ vã e distante
__________________________________ a ideia de olhar.
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Sesimbra — 1–4–73
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II
(Pequena ode doméstica)
Pequena ode doméstica:
a de habitarmos verbalmente o amor ausente.
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Algures que perguntar
de exangue corpo vegetal vivido e consumido até ao limiar da loucura.
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Assim, isento, sonho distância.
Rigorosa geometria malograda. Nossa íntima inocência.
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Oliveira de Frades — Souto de Lafões — 14–8–75
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III
Uma nua mulher age ou circula velozmente
no malogrado mês de Julho. A doce boca, oh a fonte de sua menstruação maternal, se abrira, matinal.
curvava-se sob a alva ave e sob a nostalgia das noites antigas e coincidentes: adoecia ébria sob
as abóbadas góticas dos dias…
Assim, uma mulher mágica imerge na geometria da memória
e é receptiva à claridade amanhecente, oh minha amada sofrida por obscuro amador…
Assim se despe e flutua sob exóticas flores. Ávida de ondas de esperma,
ordenadas na praia suspensa e atenta do pensamento, que, amavelmente, a visitam
na preia-mar.
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Lx. 13–7–73

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IV
(Infância)
Três dias choraste lágrimas de fogo.
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E revoltaste-te contra os penosos deuses.
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Como o pranto nos purifica ó deuses
quando edificámos o quotidiano mais puro.
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Lx. 4–12–75
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V
Ofereceste-me rosas meu amor.
Rosas breves como a água do pensamento.
O vento leve, leve as varre, as veste, as despe.
Assim se cumprem as rosas recentes, breves,
que tu, meu amor, castamente, colheste em vão.
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Lx. 15–1–74
Vídeo inédito (registo 11/2011): M. T. R.-Leal lendo um poema deste caderno:
(O corpo acende-se, rende-se)
o corpo acende-se, rende-se
ao rumor do verão. é cedo para o outono.
ouço-te, trémula carne.
onde principio. oh meu derradeiro beijo…
Lx.4–8–78 — publicado na Triplov
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Notas sobre os poemas — O segundo verso do primeiro poema (“pequeninos brilhos obsessivos na manhã do mar”), parece ecoar alguns versos de Camilo Pessanha (p. ex.: “conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos”, com um lastro simbolista), poeta que Manoel Leal muito admirava. Repare-se na evocação do mar. O brilho e o sol, tal como o verso de Leal, são também motivos fortes em Pessanha: “Da areia o brilho e a viva transparência”. Aliás, há ainda este verso alusivo, de um poema dedicado a Clepsidra: “no umbigo de tantas alvas pedrinhas, pedacinhos de ossos” (publicado na Caliban). No poema III há uma advertência no manuscrito: “Achtung [al. Atenção]— não faz parte deste caderno de poesia”; mas não indica qual o caderno a que pertence, como é habitual fazê-lo. Todavia, poderia bem inserir-se neste caderno, até pelo título do mesmo. No manuscrito do poema IV há a seguinte nota: “Quando chumbei na admissão aos liceus, o pai não apareceu para jantar e eu chorei durante três dias.” Na página ao lado do manuscrito do poema IV há uma nota referente ao mesmo: “Estava internado e a Ana [sua mulher] levou-me rosas ao hospital [psiquiátrico].”